segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Agradecimento

Diz meu pai que, até 1950, ninguém em sua família acompanhava futebol com grande afinco. Minha avó - que, segundo ele, detestava e até proibia brincadeiras de bola - mostrava-se sutilmente simpática ao time de seus patrícios portugueses; meu avô, idem ao clube da colônia italiana. Nada além.

Pois foi por influência de um padrinho, se não me engano, que meu velho e seu irmão mais velho, ainda adolescentes, começaram a acompanhar pelo rádio os jogos do Coringão. Estamos em 1951, ano de mais um dos muitos Campeonatos Paulistas conquistados pelo Time do Povo - porém, esse foi especial: pondo fim a um jejum de 9 anos, o espetacular ataque formado por Cláudio, Luisinho, Baltazar, Carbone e Mário simplesmente triturou os adversários que ousaram desafiá-lo, anotando inacreditáveis 103 gols em apenas 28 partidas.

Surgia, ali, uma simpatia - ainda discreta, é verdade - pelo Sport Club Corinthians Paulista.

Foi somente alguns anos depois, já vivendo no perímetro urbano, que a simpatia do jovem Seu João se transformou em verdadeira obsessão. Aquilo que, até então, não passava de mera narrativa feita por um radialista qualquer finalmente ganhou forma nas fotografias que ilustravam os jornais. E foi graças a uma dessas imagens que o recém saído da roça se apaixonou de vez pelo Timão: era Gylmar dos Santos Neves, fardamento todo negro, perfeitamente paralelo ao gramado, espichando-se elegantemente para fazer mais uma ponte
Diz, até hoje, que achou linda aquela imagem. Pois foi diante daquela página de jornal que, num dia qualquer de 1954, a conversão se deu por completo.



Uma vez convertido ao Corinthianismo, como não poderia deixar de ser, tratou logo de salvar todas as almas que estivessem ao seu alcance. E foram muitas. Todos os irmãos e irmãs, depois os sobrinhos (mesmo os filhos de seus desafortunados cunhados palmeirenses - que, até hoje, o têm atravessado), minha mãe, os sobrinhos dela, os colegas de trabalho... até minha avó passou a se dizer corinthiana - embora, até o fim de sua vida, continuasse perguntando pelos resultados do time do Canindé. 
Detalhe: quase a totalidade dessas conversões ocorreu durante o longo hiato entre o brilhante título do IV Centenário e o libertador gol de São Basílio, em 1977.

Sem dúvida, o corinthiano mais proselitista que já conheci, esse Seu João.

Pois, ontem, o maior herói desse grande corinthiano se foi. Ao principal responsável por o Corinthianismo haver se tornado a religião oficial de minha família, todas as homenagens.

Descanse em paz, Gylmar. E muito, mas muito obrigado!

12 comentários :

  1. Grand texto Zé. Li vários à respeito, nos mais variados blogs e sites e o seu ficou bom demais. Estou desconfiado que você não é amador. Se for é melhor que alguns profissionais que leio por aí.

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    1. Poxa... obrigado, César!! Obrigado mesmo! E sim, sou 100% amador, bróder.

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  2. 1-Em casa acho que não teve conversão. Filho de corinthiano. Neto corinthiano. Meu avô, por sinal, atuou no Corinthians aqui de Pinda. Hoje não disputa mais o campeonato da cidade, mas quando o fazia lotava o Cardosão. Digamos que era uma espécie de filial aqui. Tanto que é o maior vencedor do campeonato local (uma vez campeão dos campeões sempre campeão dos campeões) No começo dos anos 80 do século passado sagrou-se bicampeão amador do Estado. Na mesma época o time estreou um uniforme novo. Mas um detalhe irritou a torcida. Era aquela cor repugnante. A torcida vaiou, vaiou, vaiou.....e a moçada teve que voltar para o vestiário colocar o uniforme antigo.
    2- Dia desses ousei dizer no blog do velhinho do Dossiê que este Corinthians foi melhor do que o Manjubinha do Negão. Tinha muitos craques. Ganhou tudo o que podia ter ganho. Ultrapassou a barreira dos 100 gols. Fez uma excursão vitoriosa pela Europa. Pena que não tenha durado uma década.
    (Múcio Rodolfo)

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  3. 1- De onde tiraram essa idéia estúpida de usar a tal cor, meu Deus??

    2- O lunático deve ter espumado, quando leu!!!

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  4. Muito bom seu blog
    Corinthius apóstolicus romanis

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  5. Coringão de 51: 103 gols em 28 jogos. O Corinthians de tite ainda vai bater este record e com Romarinho como artilheiro !!

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    1. Podia começar já, então: nos 21 jogos que restam do Brasileirão mais os outros tantos da Copa do Brasil, média de 3,5 gols por partida, haha!

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  6. Também sou filho, neto e bisneto de corinthianos. Meu bisavô eu nao sei dizer, pois nao cheguei a conviver, mas meu avô sempre falava do Gilmar. E seleções históricas do Corinthians (comuns na virada do século) que elegiam Dida como melhor goleiro costumavam deixa-lo indignado (assim como o Rincon, que até que era bom, mas nao limpava a chuteira do Roberto Berlangero... hehe)

    Parabéns Zé, belíssimo texto.

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    1. Pegando carona no comentário do João Luis...
      Eu fico indignado quando alguém deixa de colocar o Teleco no Corintians de todos os tempos para colocar o Neto, o Teves, o Ronaldo....(MR)

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    2. E aquele povo que teima em excluir o Rivellino, então?...

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